Ghetto Zombies: Graffiti Squad vale a pena? Conheça o jogo brasileiro que mistura zumbis, grafite e nostalgia

Ghetto Zombies: Graffiti Squad é um daqueles jogos que deixam clara sua inspiração logo nos primeiros minutos, mas que tentam transformar referências conhecidas em uma experiência com identidade própria. Desenvolvido pelo estúdio brasileiro Fogo Games, o título combina tiroteios em visão top-down, hordas de zumbis, grafite, personagens carismáticos e uma boa dose de humor para criar uma aventura que bebe diretamente da fonte dos clássicos da era 16-bit.

Lançado inicialmente para PC em janeiro de 2026, o jogo chama atenção principalmente pela proposta de resgatar uma fórmula que remete a Zombies Ate My Neighbors, clássico lançado originalmente para Super Nintendo e Mega Drive nos anos 1990. A diferença é que, em vez de simplesmente reproduzir aquela estrutura, Ghetto Zombies aposta em uma ambientação brasileira e em um arsenal bastante peculiar.

Depois de algumas horas acompanhando o Esquadrão-Z pelas ruas tomadas pelos mortos-vivos, fica a pergunta: Ghetto Zombies: Graffiti Squad consegue transformar sua proposta criativa em uma experiência realmente memorável?

A resposta é um pouco mais complexa do que um simples sim ou não.

Uma cidade brasileira no meio de um apocalipse zumbi

A história de Ghetto Zombies: Graffiti Squad começa na Vila Fundinho, uma região aparentemente comum que acaba se tornando um dos poucos lugares seguros depois que uma misteriosa contaminação transforma a população em zumbis.

O detalhe responsável pela sobrevivência da comunidade é quase irônico: justamente no momento em que a contaminação se espalhou pela rede de abastecimento de água da cidade, a Vila Fundinho estava sofrendo com a falta d’água.

Enquanto o restante da cidade mergulha em um verdadeiro apocalipse, o bairro consegue permanecer relativamente protegido. Com o passar dos anos, os moradores transformam o local em um refúgio cercado por muros e barricadas.

Só que viver isolado para sempre não é uma opção.

É nesse momento que entra em cena o professor Vara, um cientista com aparência bastante peculiar de capivara, responsável pela criação do Esquadrão-Z.

O grupo é formado por quatro jovens geneticamente modificados: Kath, Vini, Fabão e Duda. Cada personagem possui suas próprias características e armas, e cabe ao jogador escolher qual deles será utilizado durante as incursões pela cidade.

A premissa é simples, mas funciona justamente porque o jogo não tenta levar tudo a sério.

Existe um contraste interessante entre o cenário de apocalipse zumbi e os elementos cotidianos da ambientação brasileira. Ruas, becos, muros e referências culturais ajudam a construir uma identidade que diferencia Ghetto Zombies de outros shooters independentes com temática de mortos-vivos.

Grafite e zumbis formam a base da jogabilidade

Em termos de gameplay, Ghetto Zombies: Graffiti Squad é um top-down shooter de ação.

A câmera posicionada acima dos personagens permite acompanhar uma área relativamente ampla do cenário enquanto o jogador enfrenta grupos de inimigos e procura os pontos necessários para avançar.

Mas matar zumbis não é exatamente o objetivo principal de cada área.

O jogador precisa explorar os mapas e grafitar determinados muros espalhados pela cidade. Somente depois de concluir essas pinturas é possível continuar avançando.

Essa escolha é importante porque faz com que o grafite não seja apenas um elemento visual ou narrativo. Ele está diretamente conectado à progressão da aventura.

O problema é que, enquanto você tenta encontrar os muros e completar os grafites, os zumbis não ficam exatamente esperando educadamente.

Os inimigos aparecem constantemente e podem atrapalhar o processo. Por isso, mesmo que eliminar todos os mortos-vivos não seja necessariamente obrigatório, limpar a área acaba sendo uma maneira bastante eficiente de conseguir espaço para trabalhar.

E é aí que começa o ciclo principal de Ghetto Zombies: explorar, grafitar, enfrentar inimigos, conseguir recursos, melhorar o personagem e voltar para a ação.

Um arsenal que é um dos grandes destaques

Se existe um aspecto no qual Ghetto Zombies: Graffiti Squad realmente demonstra criatividade, é no arsenal.

Cada personagem pode carregar até três armas diferentes, e a variedade disponível vai muito além do armamento convencional.

Existem pistolas, revólveres, espingardas, metralhadoras e fuzis, mas também aparecem equipamentos muito mais absurdos e divertidos, como armas de raio laser, disparadores de abelhas e até pistolas que utilizam ketchup e mostarda como munição.

Essa variedade ajuda a evitar que o combate se torne completamente previsível.

Algumas armas são mais eficientes contra determinados inimigos, enquanto outras possuem características especiais capazes de causar efeitos adicionais, como lentidão, dano contínuo ou maior possibilidade de conseguir acertos críticos.

O sistema incentiva o jogador a experimentar.

Em vez de simplesmente encontrar uma arma poderosa e utilizá-la durante toda a campanha, existe uma vantagem em entender o funcionamento de cada equipamento e montar um conjunto que faça sentido para o seu estilo de jogo.

Também existem armas exclusivas de cada integrante do Esquadrão-Z. Elas podem ser equipadas diretamente na base e ajudam a diferenciar os personagens.

Progressão e upgrades incentivam a experimentação

Além das armas, Ghetto Zombies possui um sistema de progressão baseado em experiência e upgrades.

Ao eliminar inimigos, o jogador consegue DNA, que funciona como uma espécie de experiência. Conforme o personagem sobe de nível, é possível investir em melhorias para diferentes atributos.

Vitalidade, defesa e velocidade de movimentação estão entre as características que podem ser aprimoradas.

Também existem estrelas espalhadas pelos cenários, utilizadas para abrir contêineres que podem esconder itens de cura e novos armamentos.

Esse sistema cria uma pequena camada de exploração dentro das fases.

Não basta simplesmente atravessar o mapa correndo e atirando em tudo que se movimenta. Existe um incentivo para procurar recursos, testar equipamentos e retornar à Vila Fundinho para reorganizar o arsenal.

A própria base funciona como um ponto importante da progressão.

É possível trocar de personagem, modificar o equipamento e distribuir os pontos adquiridos durante a campanha antes de retornar para uma nova missão.

A inspiração em Zombies Ate My Neighbors é evidente

É impossível falar de Ghetto Zombies: Graffiti Squad sem mencionar Zombies Ate My Neighbors.

A influência do clássico de 1993 é bastante evidente na proposta geral. Temos adolescentes enfrentando criaturas bizarras, uma câmera top-down, diferentes tipos de inimigos e uma variedade de armas pouco convencionais.

Mas a referência não chega a ser necessariamente um problema.

Pelo contrário. O jogo consegue utilizar essa inspiração como ponto de partida para construir sua própria identidade, principalmente por meio da ambientação brasileira.

A Vila Fundinho, os personagens, o humor e as armas ajudam a afastar Ghetto Zombies de uma simples cópia do clássico.

O resultado é uma espécie de homenagem moderna àquela geração de jogos, mas filtrada pela visão de um estúdio brasileiro independente.

O grande problema: falta um modo cooperativo

Talvez a maior oportunidade perdida por Ghetto Zombies seja justamente a ausência de um modo multiplayer cooperativo.

A estrutura do jogo praticamente pede isso.

A proposta de controlar uma equipe formada por quatro personagens diferentes, enfrentar grandes grupos de zumbis e experimentar diferentes armas parece naturalmente adequada para uma experiência cooperativa.

Entretanto, Ghetto Zombies: Graffiti Squad é essencialmente uma experiência single player.

É possível alternar entre os personagens durante a aventura, mas isso não substitui a possibilidade de dividir o controle com outra pessoa.

E essa ausência fica ainda mais evidente quando consideramos a inspiração em jogos como Zombies Ate My Neighbors, que são lembrados justamente pela diversão de jogar acompanhando outra pessoa.

Um modo cooperativo local poderia elevar consideravelmente a experiência e dar uma nova vida às fases.

A campanha é curta, mas existe espaço para rejogar

Outro ponto que pode pesar para alguns jogadores é a duração.

A campanha principal é dividida em quatro capítulos e pode ser concluída em aproximadamente três horas utilizando apenas um dos personagens, especialmente para quem não perde muito tempo fazendo upgrades e experimentando diferentes equipamentos.

Isso não significa necessariamente que o jogo termine aí.

Como existem quatro personagens jogáveis, diferentes armas e possibilidades de montagem do arsenal, existe um incentivo para retornar às fases e experimentar novas combinações.

O problema é que a estrutura das missões não apresenta uma variedade tão grande quanto poderia.

Depois que o jogador entende o ciclo de gameplay, boa parte da experiência passa a girar em torno de repetir a fórmula, testar armas diferentes e tentar atravessar as áreas com mais eficiência.

Para quem gosta de buscar todas as possibilidades e experimentar builds diferentes, isso pode ser suficiente para aumentar a longevidade.

Para quem procura uma campanha longa e constantemente surpreendente, a duração pode acabar sendo um ponto negativo.

O sistema de recarga atrapalha o ritmo

Um dos elementos que mais incomodam durante o combate é o sistema de recarga das armas.

A ideia por trás da mecânica faz sentido.

Armas mais poderosas precisam de mais tempo para serem utilizadas novamente, enquanto equipamentos menos destrutivos podem oferecer maior frequência de disparos.

Isso cria uma camada estratégica e obriga o jogador a pensar no equipamento que está carregando.

O problema aparece quando a quantidade de inimigos na tela aumenta.

Em determinadas situações, ficar esperando alguns segundos para que uma arma volte a funcionar pode quebrar completamente o ritmo da ação.

Rifles e outros equipamentos de maior alcance e dano são exemplos claros disso. A vantagem de causar bastante dano é compensada por um tempo de recarga que pode parecer exagerado justamente nos momentos em que o jogador mais precisa daquela arma.

Na teoria, isso incentiva a alternância entre diferentes equipamentos.

Na prática, dependendo do loadout escolhido, pode acabar causando mais frustração do que estratégia.

Uma identidade visual que funciona

Visualmente, Ghetto Zombies: Graffiti Squad consegue transmitir bem a proposta.

O jogo aposta em uma direção artística colorida e estilizada, com personagens e inimigos que possuem designs facilmente reconhecíveis.

O grafite também ajuda a construir uma identidade visual própria.

Em vez de apresentar apenas uma cidade genérica destruída por zumbis, o jogo utiliza seus cenários para reforçar a proposta de uma aventura urbana brasileira.

Essa escolha é especialmente interessante dentro do cenário indie nacional.

É comum encontrar jogos brasileiros tentando dialogar com referências internacionais, mas Ghetto Zombies encontra maneiras de inserir elementos da cultura brasileira sem transformar isso em uma caricatura constante.

A brasilidade aparece nos cenários, nos diálogos e no próprio conceito da Vila Fundinho.

É um detalhe que ajuda o jogo a ter personalidade.

Um jogo brasileiro com personalidade

Talvez uma das maiores qualidades de Ghetto Zombies: Graffiti Squad seja justamente o fato de ele não parecer completamente genérico.

A temática de zumbis já foi explorada inúmeras vezes.

Shooters top-down também não são novidade.

E jogos inspirados na era 16-bit existem aos montes no mercado independente.

Mesmo assim, a combinação de todos esses elementos com grafite, humor, personagens brasileiros e armas absurdas faz com que o título tenha uma identidade própria.

É justamente essa identidade que faz o jogo funcionar melhor quando ele deixa de tentar apenas reproduzir suas referências e aposta em suas próprias ideias.

A Fogo Games demonstra que existe espaço para jogos nacionais que utilizem conceitos conhecidos sem abrir mão de características próprias.

Afinal, Ghetto Zombies: Graffiti Squad vale a pena?

Ghetto Zombies: Graffiti Squad é um jogo divertido, criativo e com uma identidade bastante clara.

A experiência funciona especialmente bem para quem gosta de shooters top-down, jogos independentes e títulos que resgatam a estética e a estrutura dos clássicos da era 16-bit.

A variedade de armas é um dos maiores destaques, enquanto o sistema de progressão oferece motivos para experimentar diferentes personagens e equipamentos.

A ambientação brasileira também merece elogios.

Por outro lado, o jogo poderia entregar uma experiência muito mais completa com algumas mudanças importantes. A ausência de multiplayer cooperativo é provavelmente a maior delas, especialmente considerando a própria estrutura do título.

A duração relativamente curta e a repetição da estrutura das missões também reduzem um pouco o impacto da campanha.

O sistema de recarga, por sua vez, pode gerar momentos de frustração e interromper o ritmo das batalhas.

Ainda assim, esses problemas não anulam as qualidades do projeto.

Ghetto Zombies: Graffiti Squad funciona como um bom cartão de visitas para a Fogo Games e para o cenário indie brasileiro. É um título que demonstra criatividade, possui personalidade e entende muito bem como utilizar a nostalgia a seu favor.

Não é um sucessor perfeito de Zombies Ate My Neighbors e também não precisa ser.

O jogo encontra seu próprio caminho ao misturar zumbis, grafite, humor e referências brasileiras em uma experiência compacta e divertida.

Para quem procura uma aventura rápida, diferente e com aquele gostinho de jogos clássicos, vale colocar Ghetto Zombies no radar.

Nota: 7/10

Pontos positivos

  • Direção artística carismática e identidade visual marcante;
  • Boa utilização da nostalgia dos jogos 16-bit;
  • Grande variedade de armas;
  • Armas criativas e bem-humoradas;
  • Ambientação com elementos da cultura brasileira;
  • Diferentes personagens e possibilidades de equipamentos;
  • Sistema de progressão que incentiva a experimentação.

Pontos negativos

  • Ausência de modo cooperativo;
  • Algumas armas possuem recarga excessivamente demorada;
  • Campanha relativamente curta;
  • Estrutura das missões poderia apresentar maior variedade;
  • A repetição pesa para quem busca uma experiência mais longa.

Ghetto Zombies: Graffiti Squad é uma experiência competente e divertida que mostra o potencial do desenvolvimento indie brasileiro. Não reinventa o gênero, mas consegue transformar referências conhecidas em uma aventura com personalidade própria.


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