Gears of War: E-Day é tudo o que os fãs esperavam, mas vai muito além da violência | Review

Novo jogo da The Coalition resgata Marcus Fenix e Dominic Santiago para contar o início de um dos acontecimentos mais importantes da franquia Gears of War

Depois de anos de espera, Gears of War está de volta. E, em vez de continuar diretamente a história apresentada em Gears 5, a The Coalition decidiu olhar para o passado e explorar um dos momentos mais importantes de toda a história da franquia: o Dia da Emergência.

Lançado em 2026, Gears of War: E-Day funciona como uma prequela e coloca novamente Marcus Fenix e Dominic Santiago no centro da ação. A proposta poderia parecer arriscada, principalmente por revisitar acontecimentos que os fãs já conhecem, mas o resultado mostra que ainda havia muito a contar.

Após aproximadamente 15 horas de campanha, fica a sensação de que E-Day representa um dos melhores momentos da franquia desde o encerramento da trilogia original. O jogo preserva aquilo que tornou Gears of War tão marcante, mas apresenta uma equipe mais madura e disposta a trabalhar aspectos narrativos, variedade de gameplay e construção de mundo.

O retorno de uma das maiores franquias do Xbox

Para entender a importância de Gears of War: E-Day, é preciso voltar a 2006.

O primeiro Gears of War, lançado originalmente para o Xbox 360, ajudou a estabelecer uma nova identidade para os jogos de tiro em terceira pessoa. Em vez de simplesmente colocar o jogador correndo pelo cenário enquanto atirava, o game transformou o sistema de cobertura em uma das principais características da experiência.

A combinação entre combate tático, violência extrema, monstros gigantes e personagens visualmente imponentes fez com que a franquia rapidamente se tornasse uma das principais propriedades do Xbox, ao lado de marcas como Halo e Forza.

Agora, depois de anos sem um novo capítulo principal, a série retorna com uma abordagem diferente.

Em Gears of War: E-Day, a The Coalition não tenta reinventar completamente a fórmula. Pelo contrário: a ideia é recuperar a essência do primeiro jogo e expandi-la com os recursos e a experiência adquiridos ao longo dos anos.

E essa decisão funciona surpreendentemente bem.

O Dia da Emergência ganha uma nova perspectiva

A história de Gears of War: E-Day acontece durante o chamado Emergence Day, o Dia da Emergência.

É nesse momento que os Locusts emergem do subterrâneo e iniciam um ataque devastador contra as cidades humanas. O acontecimento representa um ponto de ruptura para a humanidade e muda completamente o rumo daquele mundo.

A campanha acompanha o Esquadrão Bravo, liderado por Marcus Fenix e Dominic Santiago.

Marcus e Dom já possuem uma relação construída antes dos acontecimentos do primeiro Gears of War. Os dois carregam consigo o peso de perdas recentes e precisam lidar não apenas com uma guerra inesperada, mas também com seus próprios conflitos.

O grupo ainda conta com Mags Carter, uma ex-Gear que abandonou o exército após discordar das decisões de seus superiores, e Lucas Reyes, um jovem soldado que ainda está tentando encontrar seu lugar naquele cenário caótico.

Essa formação é importante porque permite que E-Day trabalhe seus personagens para além do estereótipo dos enormes soldados armados até os dentes.

Eles são brutamontes, sim. Mas também possuem medo, dúvidas, traumas, relações familiares e sentimentos.

É justamente aí que o jogo encontra uma de suas maiores forças.

Gears of War também sabe falar sobre luto e guerra

Por trás dos tiroteios, explosões, sangue e violência existe uma história consideravelmente mais emocional do que poderia parecer inicialmente.

O jogo aborda temas como luto, companheirismo, trauma, os horrores da guerra e a ausência do Estado diante de uma situação de calamidade.

Marcus precisa aprender a continuar funcionando mesmo carregando suas próprias perdas. Dom, por outro lado, deseja abandonar aquele cenário e voltar para sua família, mas passa a enfrentar uma preocupação ainda maior quando perde o contato com pessoas importantes para ele.

Mags demonstra uma profunda desconfiança em relação às decisões dos comandantes, enquanto Lucas tenta lidar simultaneamente com problemas de seu passado e com os monstros que estão surgindo diante dele.

Essa construção faz com que os personagens deixem de ser apenas soldados que aparecem para disparar armas durante a campanha.

Eles possuem personalidade.

E isso ajuda a explicar por que alguns dos momentos mais marcantes de Gears of War: E-Day não acontecem necessariamente durante os maiores tiroteios.

O jogo também apresenta personagens secundários carismáticos, que ajudam a ampliar a perspectiva sobre o conflito e mostram como diferentes pessoas estão tentando sobreviver ao Dia da Emergência.

Uma campanha que não deixa o jogador cansado

A história de Gears of War: E-Day se passa ao longo de apenas três dias e acompanha a queda da cidade de Kalona.

A campanha é dividida em cinco atos, com diversos capítulos, e consegue manter um ritmo bastante eficiente.

Um dos grandes méritos da The Coalition está justamente em evitar que o tradicional sistema de combate de Gears se torne repetitivo.

O jogo continua sendo um shooter em terceira pessoa baseado em cobertura. Isso significa que boa parte da experiência envolve encontrar uma posição segura, enfrentar ondas de inimigos, avançar e repetir o processo.

Seria fácil cair na repetição.

Mas E-Day aposta na variedade.

Durante a campanha, o jogador passa por situações que envolvem combates em helicópteros, trens, áreas mais abertas, corredores apertados e confrontos contra chefes que exigem estratégias específicas.

Essa alternância ajuda a manter a campanha interessante mesmo quando o jogador já passou várias horas utilizando a mesma estrutura básica de combate.

O arsenal continua sendo uma das estrelas

O arsenal de Gears of War: E-Day também contribui para a variedade.

O jogador pode utilizar diferentes tipos de armas, incluindo metralhadoras, escopetas, pistolas, rifles de precisão e até mesmo armas explosivas de longo alcance.

Mais importante do que simplesmente oferecer opções, o jogo faz com que cada equipamento tenha características próprias.

Também existe um sistema de personalização que permite modificar armas e equipamentos por meio de melhorias encontradas durante a campanha.

Os chamados perks podem alterar características como quantidade de munição, recuo e outros atributos.

Não é um sistema extremamente complexo, mas funciona porque adiciona uma camada extra de personalização sem transformar Gears of War em um RPG.

O combate ainda tem problemas

Apesar dos acertos, Gears of War: E-Day não é perfeito.

O combate à distância funciona muito bem, mas as batalhas corpo a corpo estão entre os pontos mais problemáticos da experiência.

Há situações em que os inimigos parecem não responder corretamente aos golpes, enquanto a motosserra da Lancer pode apresentar problemas de resposta. A câmera também pode se comportar de maneira pouco confortável durante confrontos próximos.

Outro problema aparece justamente em uma das mecânicas mais tradicionais da franquia: o sistema de cobertura.

Em determinados momentos, a perspectiva da câmera cria a impressão de que o inimigo está completamente exposto, mas o disparo acaba atingindo a própria cobertura.

É um problema pequeno quando analisado isoladamente, mas que pode incomodar durante uma campanha longa.

Mundo semi aberto ajuda na construção do universo

Outro elemento interessante de Gears of War: E-Day são os momentos em áreas semia abertas.

Em determinados capítulos, o jogador pode se afastar um pouco do caminho principal para ajudar civis e outros soldados.

Essas atividades secundárias não são necessariamente complexas. Muitas delas consistem basicamente em enfrentar grupos de inimigos.

O diferencial está na maneira como elas contribuem para o worldbuilding.

Ao ajudar outros sobreviventes, o jogador conhece diferentes perspectivas sobre o que está acontecendo e consegue entender melhor o impacto da invasão dos Locusts.

São atividades relativamente rápidas e que não interrompem significativamente o ritmo da campanha.

Por isso, vale a pena explorá-las.

Visual impressiona, mas cobra caro do PC

Visualmente, Gears of War: E-Day é um dos jogos mais impressionantes da franquia.

A The Coalition combina personagens estilizados com ambientes mais realistas, iluminação elaborada e cenários que conseguem transmitir a dimensão da destruição provocada pelo conflito.

A iluminação, em particular, é um dos grandes destaques.

No PC, porém, toda essa qualidade visual tem um preço.

Durante os testes, o desempenho apresentou quedas de quadros mesmo utilizando uma configuração bastante potente. O jogo conseguiu atingir aproximadamente 60 FPS em boa parte da experiência com uma RTX 4070 Ti Super, mas algumas quedas bruscas foram registradas.

O sistema Advanced Shader Delivery, utilizado para pré-compilar shaders e reduzir determinados problemas de carregamento e travamentos, também exige paciência.

Na primeira execução, o jogador pode enfrentar uma espera superior a 30 minutos para a preparação dos shaders. Em situações em que é necessário realizar o processo novamente, a espera pode voltar a acontecer.

Bugs e problemas técnicos prejudicam a experiência

Os problemas técnicos não ficam restritos ao desempenho.

Durante a campanha, também foram observados problemas de sincronização entre a dublagem brasileira e os movimentos labiais dos personagens.

Em determinadas situações, NPCs podem ficar presos em partes do cenário ou apresentar comportamentos inadequados durante os combates.

A inteligência artificial dos aliados também pode gerar situações frustrantes, inclusive em momentos importantes da campanha.

Um dos problemas mais graves acontece quando um evento necessário para o avanço da história simplesmente não é ativado.

Em uma determinada parte da aventura, a ausência de um diálogo impediu o progresso normal da campanha. A solução encontrada foi iniciar outro save e refazer uma parte considerável do capítulo.

Esse tipo de problema é particularmente frustrante em um jogo que apresenta uma campanha relativamente linear.

A boa notícia é que são problemas que podem ser corrigidos por atualizações futuras.

O maior problema está no final

Gears of War: E-Day marca o retorno triunfal da franquia com Marcus Fenix e Dominic Santiago. Confira a análise completa do novo game da Xbox.

Se existe um aspecto em que Gears of War: E-Day poderia ter ido além, esse aspecto é justamente o encerramento.

O jogo constrói sua narrativa durante toda a campanha com bastante competência, mas o desfecho não possui o mesmo impacto de vários momentos anteriores.

O vilão Vraahk, conhecido como O Empalador, possui presença e aparência marcantes, mas acaba tendo pouco espaço para desenvolver todo o potencial apresentado.

O fato de E-Day ser uma prequela também cria uma dificuldade adicional para a narrativa.

Afinal, quem conhece a franquia já sabe que determinados acontecimentos precisam acontecer.

Mesmo assim, existiam possibilidades para surpreender o jogador e explorar consequências emocionais ainda maiores.

O encerramento deixa justamente essa sensação: a de que havia espaço para algo mais ousado.

Gears of War: E-Day vale a pena?

Apesar dos problemas técnicos, de algumas falhas no combate corpo a corpo e de um final que poderia ser mais impactante, Gears of War: E-Day é um excelente retorno para a franquia.

A The Coalition conseguiu entender o que fazia o primeiro jogo funcionar e, em vez de simplesmente copiar a fórmula, adicionou novas ideias sem descaracterizá-la.

O resultado é um jogo brutal, violento e cheio de ação, mas também surpreendentemente emocional.

Gears of War: E-Day mostra que os personagens que durante tantos anos foram conhecidos principalmente por seus músculos, armas gigantes e execuções violentas também podem carregar histórias sobre perda, medo, amizade e sofrimento.

E talvez seja justamente essa combinação que faça o jogo funcionar tão bem.

Ele é Gears of War como os fãs conhecem, mas apresentado por uma equipe mais madura, confiante e consciente de como trabalhar os elementos que tornaram a franquia relevante.

Não é uma experiência perfeita.

Mas é, sem dúvida, uma das melhores demonstrações de que Gears of War ainda tem muito a oferecer.

Gears of War: E-Day

Desenvolvedora: The Coalition
Publicadora: Xbox
Gênero: Ação
Classificação: 18 anos
Plataformas: PC e Xbox Series X|S
Campanha: aproximadamente 15 horas
Avaliação: Excelente


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